Cartas para Bárbara: XXI

eu pensei que não fosse mais te escrever.
passei uns dias enterrando palavras para que você não pudesse alcançar o que está no mais profundo em mim, o que se esconde no subjetivo e só se desvela quando corre nestas linhas.
pensei em te escrever só em maiúsculas, pra você entender a força que há em tudo que sinto e, claro, para me contrapor ao que você é. mas desisti, porque é assim que sei te escrever, porque é dentro da delicadeza que cabem todas as sensações que você provoca em mim, mesmo a raiva.
eu costumo liquidar pessoas deixando de escrever sobre elas ou para elas. é a forma que encontrei de tirá-las de mim. então eu escrevo até exaurir o que existe, até que tudo tenha sido dito, até que finalmente eu exorcize tudo e possa deixá-las ir. então, se esta carta nos aproxima, ao mesmo tempo ela anuncia um fim, próximo ou distante. eu aprendi, a duras penas, que tudo finda, Bárbara. mesmo que seja para renascer em outro corpo, em outro molde, mesmo que seja para ressurgir com outro reflexo.
você não me contou sobre a sua última viagem. aliás, você geralmente deixa que eu construa sozinha as tuas histórias, você é boa em deixar subentendido, você sempre me confunde. é que assim, assim a responsabilidade é toda minha. você é mesmo genial.
a quilômetros de distância, tua vida acontece. independente de mim, do que sinto, do que falo, do que canto para você, do que te escrevo, tua vida acontece, vibra, pulsa, sem que eu precise estar nela. não há qualquer vestígio que seja meu no que te faz de fato viver, nem nos teus planos para o futuro. não que você mostre, não que eu enxergue.
outro dia, te vi chorar e percebi que não sou eu. e tenho percebido há muito que não é como você tem dito, não funciona como você diz pra mim, dentro de você. talvez porque você queira parecer diferente do que é ou talvez porque você quer fugir. em qualquer das hipóteses, não sou eu.
Bárbara, eu quero tirar a tua roupa e o teu fôlego, eu quero, sôfrega, te engolir inteira. mas eu quero mais. mais do que uma madrugada voluptuosa seguida por um doce pedaço de manhã em que você sorri e vai embora. e então você volta para o romance dos dias comuns, para os planos de futuro, para o que fica depois da aventura. e não é por maldade, é isso que cabe no hoje.
mas me fala, Bárbara, o que vou fazer amanhã, quando só restarem memórias curtas de algo que não existe. me ensina sobre o que fazer com o sentimento que é espectador da tua vida real.

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