sobre a próxima dor

ouvi dizer que a próxima dor sempre é a menos doída. pra mim, nunca funcionou assim. a última dor sempre é a mais lacerante. talvez porque eu não tenha me habituado. temo que eu nunca consiga fazê-lo. falam-me que após sucessivas quedas, a gente aprende a cair, que os machucados já nem ardem tanto. balela. já perdi de vista as dores que tive, mas a dor é sempre inédita pra mim. e não é que eu não tenha lembranças das dores passadas, às vezes até choro quando revisito-as, mas a dor do agora é soco no estômago do qual a gente tenta recuperar o ar e parece nunca conseguir, até que passe. essa dor é viva, pungente e parece só ter reticências.
às vezes gosto de dizer que estou sempre atenta, que aprendi a não confiar, que me importo menos do que antes. quem dera. eu sou dessas pessoas que sempre se importam, que acreditam, que preferem esperar o melhor. e me falam: "espere o pior. se você receber o tal pior, não se surpreenderá e, caso receba o melhor, será uma boa surpresa". talvez eles tenham mesmo razão, talvez seja este o segredo para escapar das decepções. mas eu não sei fazer isso. eu finjo que não espero nada, finjo que sei que não serei surpreendida positivamente, enquanto guardo as melhores expectativas em segredo.
e se há amor no meio, é batata! eu estarei na primeira fileira, apostando todas as fichas no cavalo que já perdeu quatro voltas seguidas. porque, lá no fundo, eu sei, na quinta volta tudo vai mudar. eu cochichei no ouvido do cavalinho: "eu confio em você". agora vai. eu fiz um carinho nele. eu investi nele. eu olhei nos olhos. segui todo um script que só existe na minha cabeça e em alguns filmes. eu insisto em crer que com todo o meu amor e toda a minha fé, algo vai acontecer. e o cavalinho fracassa na quinta volta.
pra mim, a dor da quinta volta é maior do que a dor da primeira volta perdida. é maior do que a dor da segunda, da terceira e da quarta. a dor do agora é aquele soco, depois dos outros quatro. é a gente já sem forças. a dor do agora é mais do que a decepção, é a perda do tempo, de todo investimento e, até mais, é a dor que só sente quem teima em sentir. é a dor daquele que não aprende. é a dor do que insiste no que dói. é a dor do ego. é a dor da cegueira disfarçada de fé. a dor da quinta, da sexta, da vigésima vez,  é sempre a pior, pra mim. é a minha fragilidade exposta, a reincidência premente. e é também a certeza de que retomei o fôlego para o próximo soco, porque eu não desisto até que pare de doer.

Débora Andrade
28/06/2017

Comentários

  1. Você tem fé na vida e nas pessoas. Um exercício dolorido.

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