Postagens

Mostrando postagens de Maio, 2017

sinestesia

sentir não me é facultado
eu simplesmente sinto
jamais lamentei por isso

sou dos cheiros
sou dos olhares
de tudo que toque

sou dos toques
dos mais suaves na pele
e mais sutis na alma
aos dedos fincados
o coração acelerado

sou da voz
sou dos arrepios
sou da pele
tudo me aguça

sou do gosto
e gosto de sentir
gosto dos sentidos
do tato
dos sons
eu só sei ser
sentindo

Débora Andrade 21-03-2015

Maria

ela surgiu como a brisa
leve e tímida
que balança as cortinas
e nos faz olhar a janela
pra perceber
e receber o dia

ela é a luz do dia
que invade a casa
e desperta os sentidos
ela se intalou em mim
de modo que já nem sei
onde ela começa
e eu termino

ela chegou
com olhos diminutos
e um sorriso farto
como seu coração

já nem sei
o que é lugar comum
ela quebrou a rotina
os conceitos
e sem que eu notasse
me preencheu o peito
tomou um espaço
antes desconhecido

ela sequer sabe
e nisso está a beleza
da platonicidade
é tão distante
quanto infinito


Débora Andrade 24/05/2017

eu não quero amor mudo

eu não quero
amor mudo
eu gosto
é de amor gritado
amor estampado
nas paredes
na testa
nos gestos
não gosto
de amor escondido
enclausurar o amor
é pecado
amor
em cárcere privado
é crime
inafiançável
amor em gavetas
deteriora
esquecido
cheio de morfo
amor
tem que pendurar
pela casa
tem que colorir
o mundo
este mundo
que precisa
reaprender
o amor
eu não quero
amor discreto
quero amor exposto
disposto
amor recíproco
amor corajoso
não quero
amor tímido
amor fugidio
amor que passa
se esgueirando
quero amor
de passo firme
amor que sabe que é
amor cheio de si
convicto
quero amor
quero amor

Débora Andrade 30/11/2016

eu quero os que choram

os desolados me atraem
enquanto querem por aí
os seguros de si
enquanto
se atraem tantos
pelos super heróis
pela postura ereta
o olhar altivo
a voz impostada
eu quero os frágeis
os sensíveis
não os fracos
mas os românticos
caídos
derrubados
pelas dores do mundo

nem sei bem
se sei me cuidar
mas cuidar
dos outros
me faz bem
eu não quero
os infalíveis
quero os falidos
os derrotados
da última batalha
mas ainda crédulos
na guerra
porque a vida
é luta constante
eu quero os que
como eu
choram
dilacerados
mas não desistem
eu quero carne
osso
coração
eu não quero armas
nem armaduras
quero os desarmados
que vão pela vida
de peito aberto

Débora Andrade 28/11/2016

sobre apaixonar-se todos os dias

e me falava sobre
se apaixonar pela mesma pessoa
diversas vezes
dia após dia
sobre o encantamento contínuo
apesar de.
e é de uma beleza e
altruísmo e
de uma força ímpar
a isso chamo amor
mas além desse
conheço outro
outro apaixonar-se diário
por indivíduos vários

e quantos me diriam
da loucura que há nisso
quantos me diriam
que nisso
não há amor
e eu responderia
que há ainda mais
há tanto amor que
não cabe em um
é ter um coração tão
imenso
intenso
em que cabe o mundo inteiro

como viver
oitenta, noventa anos
e ter amado um único ser?
é egoísmo
é prisão
é ignorar a beleza espalhada
pelos dias
numa esquina
num metrô
num café
numa livraria

eu me apaixono
todos os dias
por desconhecidos
eu vivo histórias que
só aconteceram em mim
uma conversa
algumas linhas e
você tem meu coração
se eu puder ver o seu
eu amo autores
e personagens
deito com eles
e sou de todos
inteira


Débora Andrade 24-05-2017